
Beelzebuth, ministro adjunto do Inferno
O Sono Luso enviou Matias Mattias (MM) ao Inferno, local onde este entrevistou o demónio Beelzebuth (B). De volta ao mundo terreno, eis o resultado da entrevista.
MM: Beelzebuth, muito obrigado por nos receber.
B: É um prazer. Mais cedo ou mais tarde haveríamos de nos encontrar.
MM: Satanás declinou esta entrevista.
B: Não posso falar por ele, sei que tem andando muito preocupado em reunir os ministros para a nova Assembleia Demoníaca. Esta legislatura vai ser das complicadas.
MM: Como vê a tarefa de Satanás, o reeleito primeiro-ministro?
B: Dantesca… Ahahah. Esse Dante era um palhaço. Não, a sério, Só com o que foi dito das confusões das obras públicas do Belfegor na antiga legislatura, é normal que Satanás demore o seu tempo a escolher os membros do governo.
MM: A legislatura que terminou teve os seus problemas. Leviatã na área da educação não conseguiu mobilizar os professores para as reformas necessárias.
B: É normal. Belfegor meteu-se ao barulho e Lucifer, não obstante a tarefa complicada nas finanças, falhou na comunicação ao país.
MM: Há problemas sérios no Inferno?
B: Há problemas sérios em todo o lado. Mas estamos cientes que, nesta legislatura, vamos levar a bom porto todas as reformas iniciadas na anterior. Com determinação, firmes mas dialogantes, levaremos o Inferno para o futuro.
MM: E o que é o futuro do Inferno?
B: O aeroporto está congestionado. O turismo já não é o que era. Nem a Maya tem aparecido, logo ela que não perdia cá um inverno. E já viu aquela água toda que nos ameaça os fogos? É necessário fazer um carreiro de contentores com, pelo menos, 5 de altura.
MM: É difícil governar no Inferno?
B: Sem maioria absoluta, é. Temos que nos esforçar com demónios que tentam boicotar o progresso que queremos imprimir no Inferno. Mas estamos determinados, firmes mas dialogantes, sabemos que levaremos o Inferno para o futuro.
MM: O que pensa de Saramago?
B: Gosto muito. É um escritor na linha experimentalista, com uma mistura de fantasia e história e um estilo dramático em que a hipocrisia do narrador é substituída pela convicções do autor. Admiro-o desde a “O ano da morte de Ricardo Reis“, o heterónimo do Pessoa que sobreviveu um ano à morte do autor.
MM: Mas a polémica?
B: Hum?
MM: Há empatia no Inferno pela condição humana?
B: Genericamente ou em termos governativos?
MM: Genericamente.
B: Genericamente aqui há o oposto de empatia pela condição humana. Desprezamos a condição humana. Mas isso não vence eleições e temos obrigações para com os eleitores. Desde que lançamos o RSI, tem havido muitas matanças efectuadas por almas danadas que, sem o incentivo, ficariam por realizar. Os danados estão a enfrentar a crise e tomar medidas para o seu auto-emprego. É o progresso, estamos determinados, firmes mas dialogantes, prontos a levar o Inferno para o futuro.
MM: Mammon será convidado para o novo governo?
B: Apesar do mérito inquestionável, Satanás deverá optar por alguém que possa manter uma postura de diálogo com a oposição.
MM: Há asfixia democrática no Inferno?
B: Há, o que é salutar. A melhor forma de descrever isto aqui é comparando com a Madeira, lá em cima.
MM: Porquê Satanás se é em Beelzebuth que reconhecemos a face do Inferno?
B: Sempre foi assim. Satanás é o grande obreiro do partido. Optamos por permitir que a pessoa que elabora os programas de governo seja o primeiro-ministro. Fico como adjunto que é a função que melhor me descreve.
MM: Esta legislatura é para levar até ao fim?
B: Temos esperança nisso. O nosso objectivo é fomentar o progresso, estamos determinados, firmes mas dialogantes, prontos a levar o Inferno para o futuro.
MM: Obrigado Beelzebuth.
B: Cá te espero.