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12/03/2010

Freeport de Alcochete – O homem com 2 milhões de libras

José Sousa (nome fictício), o homem que tem as libras

José Sousa (nome fictício), o homem que tem as libras

A TVI teve acesso a um fax que dá conta de subornos de 2 milhões de libras (aproximadamente 3 milhões e 200 mil euros na data do documento) relacionados com o Freeport de Alcochete. O Sono Luso teve acesso ao documento, e localizou o indivíduo que recebeu o suborno. A pedido do próprio, será utilizado o nome fictício de José Sousa (JS). Segue-se a transcrição da entrevista telefónica efectuada por Matias Mattias (MM).

MM: Recebeu 2 milhões de libras para viabilizar o Freeport de Alcochete?

JS: Não foi para viabilizar. Quer dizer, estava tudo pronto e a decorrer sem problemas mas apareceu um relatório de impacto ambiental desfavorável. Foi necessário puxar uns cordelinhos.

MM: Através de suborno?

JS: Eu não pedi nada. Foi oferecido. Considerei-o como um incentivo para tratar das coisas rapidamente já que haveria confusão com o Guterres a ir embora e o governo a cessar funções.

MM: O primeiro-ministro esteve envolvido?

JS: Guterres não percebia nada do que se passava à volta dele. O gajo é socialista. Achava que com diálogo tudo se resolvia. Nunca viu luvas, nem esta nem as outras.

MM: Há outras?

JS: Os meus colegas dizem que sim. Eu só recebi esta. Quer dizer, das grandes. Posso ter recebido outras coisas mas nada que me permita viver tão bem como esta.

MM: Considera que, de alguma forma, roubou ao país?

JS: Não. Só tenho 3 milhões de libras no bolso. Não era dinheiro dos portugueses. Foram uns ingleses interessados que contribuíram para o progresso de Portugal e para o meu próprio progresso.

MM: Mas é ilegal.

JS: Também o aborto era até ter sido legalizado por um governo PS. Pusemos o povão a votar por nós e tudo. As ilegalidades de hoje são as práticas comuns de amanhã. Só estou na vanguarda desse movimento.

MM: Em termos políticos e sem querer revelar a sua real identidade, não sofreu consequências com este incidente.

JS: Temos sorte em conseguir manter o sistema judicial sob controlo. Eu não me posso queixar. Como sabe – e isto é o máximo que direi – a minha carreira não foi prejudicada por isso apesar das cabalas e campanhas negras.

MM: Parece ser um facto relevante que, em Portugal, o poder político não é alvo de investigação séria.

JS: Nada é alvo de investigação séria. Eles tentam mas nós minamos aquilo por dentro. Há uns palermas que dedicam anos da sua vida à procura da justiça para os outros. Palhaços. Mal começam a roçar na verdade nós arranjamos forma de os despachar. Por exemplo, um palhaço meteu um amigo meu na prisão preventivamente – hoje já tem a carreira congelada. Se protestar muito mais até droga lhe metemos debaixo da toga e soltamos os cães. Quem se mete com o PS, leva, já dizia um querido amigo meu.

MM: Jorge Coelho…

JS: Um grande homem.

MM: …cuja nomeação para a Mota-Engil também levantou suspeitas de promiscuidade entre o poder político e o poder económico.

JS: E depois?

MM: Como se governa com essas suspeitas?

JS: Promete-se merda. Comboios, aeroportos, estradas, rendimentos, subsídios, cursos superiores para todos… Merda. Ainda os pomos a pagar essa merda toda. Os maiores apoios que temos vêm dos gajos pensantes. Agora também controlamos parte significativa dos jornais. Já deve ter reparado, não nos esforçamos muito para esconder.

MM: Mas o país queixa-se da corrupção…

JS: Não queixa nada. O país queixa-se de não ter acesso à corrupção. O povinho parolo não quer que acabe a corrupção. O que eles querem é poder aceder, da mesma forma que eu acedo, a poder e dinheiro.

MM: Isso é desolador. Onde irá o país parar?

JS: A lado nenhum! O Barroso percebe isso. É um tipo porreiro. Agora estamos empenhados em arranjar desculpas para as costas de Bruxelas. Os italianos estão radiantes. Agora vamos poder fazer tudo o que quisermos e dizer que foram os burocratas de Bruxelas que nos obrigaram. Isso ganha eleições.

MM: E o Plano Tecnológico?

JS: Serve o seu propósito.

MM: Que é?

JS: Fingir modernidade. Estamos a extrapolar um modelo originário do meu mentor, pessoa que muito admiro, o doutor Emídio Rangel. Quando você viu o macaco Adriano pela primeira vez, ficou de boca aberta. Perguntou a si próprio o que era aquilo. Um tipo a fingir que é macaco na televisão? Aí reconheceu imediatamente que aquela era a nova programação televisiva, movimento, nada previsível, dinâmica, cortes radicais de assunto com música hipnoticamente desconcertante. É o meu modelo. Claro, sem artifícios tão vincados porque da política espera-se menos entretenimento e mais determinação. Mas temos também os macacos de serviço.

MM: Fico estupfacto com a sua forma de estar na política.

JS: Isso é uma conclusão que você está a tirar, que eu estou no ramo da política. Não estou, estou na área do entretenimento. Sou uma espécie de Futebol, Fátima e Fado para reformados e para os novos que têm a mania que são espertos e ainda acreditam no Pai Natal.

MM: Isso não vai atrasar o país?

JS: Atrasar como, homem? Queria o quê? Plantar batatas? Estamos numa sociedade moderna em que a realidade é a internet, o movimento, a luta entre os que acham que são elite e a elite que nós estamos a fabricar nas universidades hoje. Temos feito um trabalho notável na educação.

MM: Como assim?

JS: Em primeiro lugar, adiamos a entrada no mercado de trabalho. Senão a taxa de desemprego seria uma catástrofe. Vendemos pós-cursos, nem que para isso tenha sido necessário fazer o upgrade das licenciaturas para mestrados. Como os mestrados não valem um chavo, andam os toninhos a fazer doutoramentos que não valem um cu furado. Eu nunca fiz uma licenciatura e sai-me bem.

MM: Mas a educação e o ensino superior são o caminho que permite ter gente que possa assumir o rumo no futuro.

JS: Nós temos um rol de gente pronta para assumir o futuro. É uma faca de dois legumes. Como não há empregos, os tipos metem-se nos partidos. O nosso está na onda de cima por isso, temos muitos putos chico-espertos que poderão chegar a deputados, ministros e até presidentes.

MM: Então opta-se pela política como alternativa a um emprego?

JS: Foi o que eu fiz. Há milhares de rapazolas como eu pelo país fora. A política é mal paga mas, já lhe disse que tenho 2 milhões de libras no bolso?

MM: Esse é um quadro negro para o país.

JS: Não é. O povão acredita. Temos jornalistas a dizerem-lhes para acreditar. Funciona perfeitamente. Daqui a uns tempos chacinamos um gajo que diga mal e, com o medo, todos acabam por apoiar seja o que for que viermos a fazer. O problema do Hitler foi aquela obcessão idiota pelos judeus. Se tivesse usado a cabeça em vez das paixões, teria enchido os bolsos e hoje já poderia ser conhecido como um grande homem de estado. Eu vou ficar na história, como todos nós. Mas no meu caso específico, será por mérito. Eu criei o modelo do futuro. E quem vier depois que feche a porta!

MM: O que tenciona fazer com o dinheiro do Freeport?

JS: Está guardado. Nós mandamos os palermas gastarem dinheiro. Mas eu guardo-o. Poderei precisar dele se alguma das minhas experiências der para o torto.

MM: Para sair do país?

JS: O Vale e Azevedo deu-se bem.

MM: Bem… Nem sei que dizer. Obrigado pela entrevista.

JS: Veja lá se envia isso ao Silva para ele dar uma vista de olhos antes de publicar. Não é censura. Gostamos é de estar informados, percebeu senhor Matias com número fiscal 3231535?

MM: …