| O único jornal de auto-referência
30/07/2010

Não há maior prova de amor que matar o teu filho porque ouviste vozes

Lou Reed - Kill Your Sons

Lou Reed - Kill Your Sons

por Vitor Cunha

Ambiente Lou Reed envolve as planícies urbanas da Lusitânia, exalando conforto e compartimentando, tudo bem aprumado, sob tortura infanticida, com rigor e zelo diplomata entre etiquetas de esquerda e direita. Nos montes, para além do frio calcário, entre as brumas da memória, o povo tem mais em que pensar, valha-nos-nosso-senhor.

José Saramago vem destruir etiquetas, tornando impossível descobrir quem é de esquerda e de direita, quando alguém, não só concorda com as afirmações do escritor como – pasmem-se – até acha Caim leitura excelente.

Uns socráticos entendem achar defensores de Saramago e detractores de Sócrates “gente de direita”. Gentalha. Pela falta de tino, poderia o incauto julgar tratarem-se de jornalistas, mas a estupidez ultrapassa cursos universitários e marcas de aparelhometros sofisticados de veneno pueril.

Como é sabido, por religiosos que querem filhas virgens e preservativos abolidos, não há maior prova de amor do que estar pronto para degolar e queimar o nosso filho único por ordem do além. A infantofagia deveria, inclusivamente, ser apanágio de gente não-comunista por natureza própria e hereditária. Há quem ache, até, que estas questões devem ser resolvidas com renúncias de nacionalidade, provavelmente, os da mesma má-vida que vêem suspeitos de pedofilia aclamados, isto em determinados círculos mal-frequentados e pior iluminados.

É um facto simples comprovar que Saramago não precisa de apoio dos portugueses. Basta-lhe o apoio dos leitores internacionais, que, com alguma cultura própria, sem a imagem bolorenta de um ou outro Salazar em paredes cavernosas de escola (ou do deus-Magalhães, também dogma socrático), não lamentam que fulano ou sicrano tenha determinada nacionalidade. Até porque, se fossem japoneses, deus não poria lá os pés, coisa que viabilizaria toda a política sanguinária do Europa-é-católica-escrito-no-texto-do-cherne, analogia piscatória, símbolo cristão e iguaria crua nos restaurantes de Tóquio.

Nós preferiamos, porém, viver num país onde se pudesse escrever o que nos vai na veneta. Gostaríamos, se não fosse pedir de mais aos burgueses, e por isso, colocamos a questão à vossa mercê, porque o povo é douto e lerdas são as opiniões recicladas, ser-nos permitido anexar orações, entre divergências e ornamentos neo-florentinos, sumariamente resumindo a nossa opinião, vulgo liberdade de expressão, que trampa tem mau cheiro independente da criatura que a excreta. Há o homem que viu o Estado Português condenado pelo Tribunal dos Direitos Humanos. Isso é bonito. Um belo prado onde a devoção de quem constrói arcas para dilúvios possa contemplar, fraternalmente e com igualdade liberal, dilúvios de arcas. Seja isso lá o que quer que seja, ou não, porque a língua é mesmo assim, um conjunto de letras cujo sentido é aquele que o cérebro, esquerdo e direito, com mais ou menos engenho, o determinar.

Falando de engenho, o progresso são TGVs. E Todos Gostamos de Vícios. Não são, nunca serão, e mal seria se fossem, obviamente, reflexões de um escritor, ou de um tipo que escreve “romance” na primeira página de um livro, livro que ainda não foi lido por nenhum dos acérrimos críticos da moral doutrinária, e malfadado, porque não tocado por deus, se não contribuindo para o grande livro da humanidade.

Era bonito que Buda viesse apaziguar os bárbaros. Ou outro qualquer. Este está um bocado gasto. Porque os bárbaros, na sua maioria, têm acesso aos meios de comunicação. Muitos são de boas famílias e os que não são, almejam ser, nem que para isso façam nascer dois ou três bastardos pelo caminho. Alguns lêem a cartilha, outros inventam-a com o zelo do burocrata que apodrecerá em diligências formais de constituição do futuro inóspito mas compartimentado. Agora, a nossa conclusão é que, como deus existe, é uma divindade muito distraída. Temos que o avaliar nesses termos, não nos é dada alternativa. É uma simples consequência da inabilidade de compreensão da natureza divina. Há aí uns que compreendem. Esses são os bem-aventurados. Com o devido zelo, aguardam a promoção, eles próprios, aos deuses da geração.