
Edvard Munch - Evening on Karl Johan, óleo sobre tela, 1892
Por Vítor Cunha
Falar de Munch é falar de “O Grito“, a enigmática pintura que ficou nos registos populares como a perfeita ilustração de algo errado ou imperfeito. O desespero da obra é utilizado, frequentemente para fins cómicos, como alegoria da condição humana. Há, sem dúvida, uma relação demasiado forte entre o sofrimento profundo e a comicidade.
Apesar da importância de “O Grito“, o quadro de Munch que mais me intriga é este, o “Anoitecer em Karl Johan“. Já lá iremos.
Hoje à noite, a SIC Notícias juntará José Saramago e o padre Carreira das Neves para um confronto de ideias, à partida, previsíveis. De um lado, o crente devoto, do outro, o ateu convicto. O que se espera desse confronto? A prova inequívoca da existência ou não existência de um deus? Porque tudo o resto é irrelevante. Podemos discutir até à exaustão de Hercules, mas a única conclusão que nos interessa, existindo possibilidade de conclusão, é a escolha do partido que nos representa, o da fé na existência ou o da convicção da não existência divina.
Porque é tão importante discutir a existência de uma ou mais divindades? Os crentes dirão para entender a vida, os não crentes dirão, com igual sensatez, para entender a morte. Os crentes que acreditam que a divindade nos permite viver a vida de uma determinada forma estão equivocados se não referindo a variável principal. Porque haveríamos de viver de uma determinada forma, contrariando a liberdade que temos ao dispor? Tudo cai no mesmo problema: a inevitabilidade da morte. A morte justifica todas as religiões, todas as crenças, todas as necessidades, toda a moral. Só cremos porque tememos a morte. Fosse o ser humano imortal, nenhuma religião existiria. Ateus e religiosos procuram a mesma coisa, o significado da vida na presença da morte.
O quadro de Munch ilustra uma multidão a afastar-se, decidida e temerosamente de um local onde nada se vislumbra. Sabe o que falta na pintura? O sol. Já se pôs. Morreu. A multidão vira costas e afasta-se desse sol morto. Foge da morte. Evita-a, teme-a, dedica-lhe a vida rezando e intelectualizando o seu destino final. Todos menos a figura algo sinistra que a encara. O existencialista. O José Saramago daquela multidão, arrisco a afirmação.
Podemos discutir a necessidade das religiões, os seus preceitos, rituais, desígnios. Nada disso é, como diria Pacheco Pereira, o essencial. A verdadeira essência de qualquer religião reside num facto simples que qualquer humano reconhece como verdadeiro: o seu destino ser morrer.
São então necessárias as religiões? Talvez sejam. Talvez estejam também afastadas do que importa. Todos se sentem os povos eleitos, usam de sobranceria sobre as outras e servem de justificação de todas as atrocidades possíveis. Como afirma Saramago, necessitam de explicações e interpretações mais complexas que os textos que têm por base. Podem explicar-me todos os motivos encontrados pelas racionalizações modernas para a rejeição da oferenda de Caim em detrimento da de Abel. Nenhuma delas explica a rejeição da oferenda da dúvida de Saramago que o motiva a falar e escrever “Caim“.
Escusar-me-ia de afirmar que a liberdade de crítica a Saramago não está a ser por mim posta em causa. Também não ponho em causa a liberdade de Caim para assassinar Abel. Mas talvez fosse uma boa ideia equacionar se toda a crítica, livre e de direito a Saramago, não é a versão moderna do assassínio de Abel.
Porque se não podemos matar deus, podemos provar inequivocamente a sua passividade.
Este texto é a minha resposta a Vasco Pulido Valente e à contra-resposta de Daniel Oliveira