| O único jornal de auto-referência
30/07/2010

Fado candidato a património da UNESCO

Alfredo Marceneiro

Alfredo Marceneiro, homem ímpar que os parolos dos portugueses acham menos importante do que o palerma do Salazar.

A cultura nacional é pouca, dizemos nós, “os portugueses”. Ora valorizamos a parolice do concurso televisivo com um “canta muito bem”, ora queixamos-nos de pouca oferta cultural exigindo mais das inconsequentes autarquias. Podemos continuar a negar para nós próprios o simples facto de que Tony Carreira enche o Pavilhão Atlântico. Não há falta de grandes eventos. Se a cultura nacional é pouca, é tão somente porque deixamos de valorizar o pequeno evento, a tasca, o rancho folclórico ou a noite de fados da paróquia.

Numa época em que figuras como Alfredo Marceneiro não vingariam – apesar do inegável charme e magnânimo talento – por necessidade do grande palco-espectáculo; na mesma época em que o revisionismo recauchutado de Amália Rodrigues necessita de loops e vocalizações cavernosas para conquistar audiências do imediato aqui e agora, a iniciativa do embaixador de Portugal na UNESCO, Manuel Maria Carrilho é, não só de louvar como motivadora da reconquista do tão perdido orgulho nacional.

As bandeiras no Euro 2004 foram símbolo de uma identificação nacional desportiva. Que seja o fado – o bom e único, o inalterado e genuíno, o de tasca e café intocado por ASAE – o novo símbolo nacional. O desdém das novas gerações por este ecléctico género musical tem tão somente um culpado: o grupo de pseudo-puristas que reclamam para si o que não pertence a cada um e sim às esquinas esfoladas das esbatidas cores de um bairro perdido.