| O único jornal de auto-referência
30/07/2010

Caim por José Saramago

José Saramago, orgulho nacional

José Saramago, orgulho nacional

Deus não é pessoa de bem. Caim mata Abel num acto que caracteriza de liberdade. “Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse abel quando estava na tua mão evitá-lo,…

É com esta interessante premissa que os mitos e histórias canónicas do Antigo Testamento são revisitadas por um Caim, ele próprio omnipresente mas não omnisciente de tudo que o rodeia. Caim vai percebendo, entre avanços e recuos de presentes no passado e no futuro (porque um presente é algo que se vive agora), uma parte da natureza de deus. Encontra-o não todo poderoso mas galhofeiro no seu poder. Há coisas que o comum dos mortais não pode saber sobre uma divindade. Através de crueldades com traços de puro laxismo e designios curiosamente decididos por impulso, o deus com dificuldades de compreensão de física básica, cria desgraça e caos através do capricho momentâneo e até hedonista da sua sapiência.

Caim, uma das capas

Caim, uma das capas

Caim vai adquirindo saber. E isso chateia deus que, na sua importância, nem reparou que traçou o destino de Caim para que este observasse a sua deficiente obra. O confronto final, numa bela alegoria com a Arca de Noé, entre os obreiros de deus (personificados em Noé e a sua família) e  Caim, o homem que adquiriu conhecimentos sobre a natureza da divindade, é de uma extraordinária lucidez literária e intelectual. Caim boicota o plano de deus. E desde então, nada mais se passou, presume-se que continuam a discutir. Ainda discutem hoje.

Com uma clara oposição entre o divino e o conhecimento, afastando satã da equação como um mero hedonista a quem deus faz umas vontades sazonais, o livro não devia ser fonte de polémica e sim, fonte de discussão aberta sobre os méritos de uma doutrina da Criação para uma sociedade de responsabilidades individuais.

Se o leitor é um católico dos que se ofende com literatura, talvez devesse fazer como Caim e aceitar a sua essência, não a essência que outrem define para si. Se é judeu, o caso pode piar mais fino porque, como diz Saramago, “os católicos não lêem a bíblia“.

Em suma, Saramago é um tesouro nacional. Com 86 anos, imagina-se não ter oportunidade para escrever tudo o que ainda lhe falta escrever. Infelizmente. Acarinhem-o enquanto o têm. Ninguém tomará o seu lugar. Consequência de se ser único.